gustavo barros
foto retirada do endereço http://flickr.com/photos/ella_katrina/
‘nós apenas partejamos, trazemos à luz o que já existia’
(fala do demônio em dr. fausto, de thomas mann)
em 2005 tive o privilégio de assistir a estréia de «encarnado», espetáculo de dança contemporânea da lia rodrigues cia de danças em paris, no ano seguinte em berlim e, hoje, em 2008, não mais como estrangeiro, no brasil. mas nesse dia, o público foi presenteado com uma outra versão do trabalho — uma variante falada, quase-literária para que o tema pudesse ser minimamente observado. lia rodrigues convida ao público, não mais distante, a uma reflexão sobre um certo universo que nos devolve a natureza do que também somos.
a cia. partilha o sensível, revisitando amigavelmente as idéias de jacques rancière. mas não foi por ele que tudo pôde ter começado, mas por uma vivência profunda diante da dor do outro — tema desenvolvido por susan sontag e experienciado diariamente no trabalho da cia. na antiga sede na favela da maré. sem nenhum talento para panfletagens sociais, lia percebe os moradores, os artistas e ela mesma como operários de uma arte que possa abrigar o que pode estar vivo.
é prazeroso observar a articulação da cia. em construir relações artísticas com os temas que são seus vizinhos e hoje, durante quase duas horas, poder experienciar uma forma poética e resistente de criar amizade. lia (a-cia.-e-ela-mesma) transcriou, mais uma vez, a possibilidade de se apresentar-experienciar dança. e mesmo que sua proposta abrigue decisões de risco, de desentendimentos, os-criadores-e-lia decidiram apresentar ao público uma proposta nua — em que a cena artística foi mais uma vez questionada e retirada de seu lugar inorgânico. nesta apresentação, o palco esteve cheio de revelações caras e o observador teve duas opções: re-agir ou deixar-se esvaziar.
_ ainda há o que se dizer.
no início do espetáculo, lia propõe uma observação franca sobre as leis de incentivo à cultura, quando expõe um cartaz da «petrobrás» e se dirige ao público orientando os que não conhecem ‘como, onde e porque’ os seus impostos estão sendo empregados, a uma reflexão participativa. lia é uma daquelas artistas que realmente não permanece só em sua orientação política, ao meu ver, ela está distribuindo qualitativamente as responsabilidades ao tornar evidente o que está intrinsecamente dissimulado.
hoje, em seus 18 anos, a companhia, com algumas passagens pelo brasil e muitas pelo mundo, mantém com sucesso, uma exposição simples da subjetividade em um país que ainda sofre pela marginalização e artificialidade nas relações humanas.
obrigado a cia. e lia por nos emocionar.
sesc pompéia _ festival palco giratório brasil _ 13.08.2008 _ são paulo/brasil




1 comentários:
Querido!
Que saudade de vc. Precisamos nos falar.Adorei o blog. Vamos nos lincar, o meu é tudoedanca.blogspot.com
Ce tá em Berlin? bj Má
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